Pesquisas eleitorais · Pré-registro · Eleições 2026 · Versão completa
Em 2022, cinco pontos trocaram de lado sem nenhuma pesquisa ver. Hoje há dezesseis em jogo.
Versão completa do pré-registro: metodologia, a grade de 24 estimativas, os testes descartados e as seis previsões com critério de morte, fechadas antes do primeiro turno.
Análise fechada em . Publicada em , três dias antes do primeiro turno de domingo, 4 de outubro de 2026.
Análise fechada em 30 de setembro de 2026. Publicada em 1 de outubro, três dias antes do primeiro turno. Pré-registro: a grade, as previsões e os critérios de falseamento estão escritos antes do resultado. Domingo decide quais sobrevivem.
Modelo analítico sobre pesquisas de terceiros, não pesquisa eleitoral, não substitui pesquisa registrada no TSE, e nenhuma coleta própria foi feita. Todas as pesquisas usadas são registradas e públicas.
A provocação
Essa comparação entre pesquisa e urna eu já vinha fazendo. No vídeo do Canal Meio de 30 de setembro de 2026, Pedro Dória levantou três pontos cegos de toda pesquisa eleitoral: quem vai votar de fato, quem muda de ideia na última semana, e o descompasso entre a última pesquisa e a urna. Trouxe a leitura do "antipetismo de chegada", que ele atribui a Maurício Moura, do Ideia: o eleitor que decide tarde chegou historicamente mais forte do que a pesquisa anunciava.
O vídeo não abriu a pergunta, me fez ir mais fundo nela. Rodei 150 pesquisas de 2022, de 19 institutos, e 39 de setembro de 2026, de 16.
O que achei não era o que eu esperava. A parte do erro que decide a eleição não está dentro das pesquisas: ela acontece depois da última delas. E não é gente mudando de ideia na reta final, porque quem fechou o campo na véspera não errou menos do que quem fechou cinco dias antes.
O que testamos e descartamos
Antes dos números que sustentam este texto, testei um bocado de leituras que pareciam sólidas de cara e não ficaram em pé. Dois exemplos, porque análise que nunca descarta nada geralmente não se testou de verdade.
A correlação que parecia ouro. Medi o viés histórico de cada instituto e correlacionei com o erro dele na eleição. Deu r de 0,96, o que parecia dizer que o erro de cada casa é previsível. Não diz. O "erro" foi calculado como pesquisa menos resultado, e o resultado é uma constante. Somar constante não muda correlação nenhuma. Troquei o resultado da eleição por 0, por 30 e por 999: o r ficou em 0,9557 nos três, até a quarta casa decimal. Uma estatística que não se move quando você troca o resultado da eleição não pode estar prevendo erro eleitoral.
E vale dizer o que sobrou dela: quase nada. O que o 0,96 mede é que cada instituto publica números parecidos entre as próprias rodadas, o que num mês de corrida estável é quase garantido por construção. Isso não é achado, é o resíduo de uma conta mal feita. O episódio inteiro é erro metodológico pego, não descoberta, e está aqui por isso.
A mistura de bases que inverteu um ano inteiro. Pra comparar pesquisa com urna, é preciso pôr as duas em votos válidos. Eu convertia as pesquisas normalizando sobre os quatro candidatos principais e comparava contra o resultado oficial, que é calculado sobre todos. Em 2018 os quatro somavam 92,5% dos válidos, então cada estimativa minha saiu inflada em 8%. Isso bastou pra inverter o sinal de 2018: eu reportava o antipetista superestimado em 1,5 ponto, e os válidos publicados pelos próprios institutos mostram que ele foi subestimado em 4,3. O erro foi achado quando pedi a outra ferramenta que refizesse a análise só com a pergunta, sem as minhas conclusões.
O segundo caso é o mais útil dos dois, e não pela estatística. Eu tinha escrito a lista de armadilhas dessa análise, e caí numa delas. Saber qual é a armadilha não impede de cair. O que impede é alguém de fora refazer a conta.
A manchete: não existe um número para domingo, existem 24
Publicar um número só pra margem de Lula, com banda de confiança, parece rigoroso. É falsa precisão: essa banda vem de uma estatística que não muda quando você troca o resultado da eleição por outro, e os dois lados da conta, a margem de hoje e o erro histórico, usam universos e pesos diferentes. A correção não é escolher uma especificação melhor, um jeito mais caprichado de montar a conta. É não escolher nenhuma, e mostrar as alternativas lado a lado.
A grade sai de duas perguntas que não têm resposta única.
A primeira: o que as pesquisas dizem hoje? Há 39 pesquisas de setembro, e pelo menos quatro jeitos razoáveis de resumi-las num número só, conforme você use média ou tendência, e conforme dê o mesmo peso a cada pesquisa ou a cada instituto. Isso importa porque a Quaest fez 5 rodadas em setembro e nove institutos fizeram 1 cada: dar peso igual a cada pesquisa deixa quem publica mais mandar mais no resultado.
A segunda: o quanto as pesquisas erraram da última vez? Isso se mede comparando as pesquisas finais de 2022 com o resultado real, e há vários recortes razoáveis de quais institutos entram na conta. Rodei oito e publico seis: um era idêntico a outro, e o corte de dez rodadas ou mais dá 4,79, dentro da faixa dos publicados. Importa porque incluir um instituto que errou 21 pontos, o Brasmarket, derruba a média de erro de 4 pontos para 2.
Cruzando as duas perguntas, dá 24 estimativas da margem de Lula em votos válidos (o que sobra depois de tirar brancos, nulos e quem ainda não decidiu). Nenhuma é desonesta: são 24 jeitos defensáveis de fazer a mesma conta. E repare numa coisa, porque a intuição aqui costuma errar: nenhuma das duas dimensões é um recorte do eleitorado, tipo sexo ou idade. São escolhas de método, de como calcular, não fatias de quem vota. A distância entre a leitura mais otimista pro Lula e a mais pessimista é de 9 pontos:
| Consenso de 2026 | Viés: as 13 com 3+ rodadas | sem outlier | mediana | mín. 6 rodadas | 6 maiores | 4 maiores |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Média simples de setembro (+3,35) | +1,39 | −0,53 | −0,55 | −1,69 | −3,63 | −4,72 |
| Tendência por pesquisa (+1,41) | −0,55 | −2,47 | −2,49 | −3,63 | −5,57 | −6,66 |
| Tendência com peso igual por casa (+4,28) | +2,32 | +0,40 | +0,38 | −0,76 | −2,70 | −3,79 |
| Média com peso igual por casa (+3,65) | +1,69 | −0,23 | −0,25 | −1,39 | −3,33 | −4,42 |
Uma convenção, para não haver dúvida: a margem está sempre escrita do ponto de vista de Lula. Sinal positivo quer dizer vantagem dele, negativo quer dizer vantagem de Flávio Bolsonaro. É escolha de notação, não de preferência: a conta seria idêntica com o sinal invertido.
Amplitude: +2,32 a −6,66. Mediana: −1,54. Em 19 das 24 células o candidato antipetista fica na frente.
Esse −1,54 merece uma pausa, porque é fácil ler errado. É o resultado estimado: na mediana da grade, o antipetista termina a corrida cerca de 1,5 ponto na frente. Não é o tamanho da correção que a grade faz na pesquisa. São dois números diferentes, e trocar um pelo outro inverte o sentido da frase.
A correção é bem maior. As quatro leituras de consenso de 2026, a coluna da esquerda da tabela, têm mediana de +3,50 pra Lula, o que as pesquisas de setembro diziam antes do ajuste. A grade inteira, depois de aplicar o viés histórico, tem mediana de −1,54. A distância entre as duas, de +3,50 para −1,54, é a correção que o modelo faz: cerca de 5 pontos de margem. Guarde os dois números separados. 1,5 é onde a corrida termina. 5 é o tamanho do ajuste pra chegar lá.
E tem uma terceira escolha que eu não coloquei na grade e que deveria estar lá. O viés histórico foi medido na distância entre a última pesquisa de 2022 e a urna. Mas duas das quatro leituras de consenso são médias de setembro inteiro, não da véspera. Isso importa porque em 2022 a margem andou 3,5 pontos entre o início de setembro e a véspera: dos 6,3 pontos que separam a última pesquisa da urna, cerca de 3,5 é movimento de campanha e só 2,8 é viés do instrumento.
Calibrando o viés no mesmo período do consenso, a mediana da grade sai de −1,54 para +0,70, com o Lula na frente. A direção também é dependente de especificação.
Na prática: nem a magnitude nem a direção estão fixadas. O que está fixado é que a correção é grande, de 3 a 6 pontos de margem, e que ela aponta mais vezes para o antipetista do que para o PT. Isso é menos do que eu gostaria de dizer e é o que os dados sustentam. Parte da diferença vem da tendência de setembro, e vale abrir o número. Com peso por pesquisa, a margem de Lula cai 0,11 por dia, com t de 1,68. Com peso igual por casa, ela sobe 0,04 por dia, com t de −0,20. Nenhuma das duas é significativa, e elas têm sinais opostos. São essas duas linhas que produzem os dois extremos da grade, então cabe ver a grade sem elas: só com as duas leituras de média, a mediana vira −0,97, a amplitude cai de 9 para 6,4 pontos, e o placar fica em 10 de 12. O desenho geral não muda, a dramaticidade sim. Combinadas de um certo jeito, as escolhas se cancelam e dão "empate". Mas "empate" é uma célula entre 24, não a resposta.
O que isso muda no tabuleiro, e o que não muda
Até aqui falei de margem, a diferença entre os dois. Quem acompanha política quer saber outra coisa: quanto cada um tem, e se acaba no domingo.
Primeiro, a correção não cai toda no colo de um candidato. Em 2022 foi quase 80% para o antipetista e 20% para o do PT (Bolsonaro apareceu 5,0 pontos abaixo do que teve, Lula 1,4 acima). Aplicando essa proporção à grade:
| Especificação do viés | Quanto o antipetista aparece abaixo |
|---|---|
| todas as 13 casas | 1,5 p.p. |
| sem o outlier | 3,0 p.p. |
| mediana robusta | 3,1 p.p. |
| mínimo de 6 rodadas | 4,0 p.p. |
| 6 de maior circulação | 5,5 p.p. |
| 4 de maior circulação | 6,3 p.p. |
Mediana de 3,5 pontos, faixa de 1,5 a 6,3. Conservador: "pelo menos 2". Honesto: "cerca de 3,5, podem ser 6".
A repartição de quase 80 para 20 vem de um ano só. Em 2014 foi ainda mais desigual, 84 para 16.
E aí vem a parte que muda a leitura da eleição. Nas 39 pesquisas de setembro, em votos válidos, Lula tem 43,5 e Flávio Bolsonaro 40,1, demais 16,4. Pra encerrar no primeiro turno é preciso passar de 50%.
| Quanto o antipetista aparece abaixo | Lula | Flávio | Falta para 50% |
|---|---|---|---|
| nada | 43,5 | 40,1 | 9,9 |
| 2,0 p.p. | 42,9 | 42,1 | 7,9 |
| 3,5 p.p. (mediana) | 42,5 | 43,6 | 6,4 |
| 6,3 p.p. (extremo) | 41,7 | 46,4 | 3,6 |
(As contas saem das médias sem arredondar, 43,46 e 40,11; quem refizer a partir dos números exibidos pode achar uma décima de diferença em duas células. É arredondamento, não erro.)
Com a correção mediana o antipetista passa à frente, 43,6 contra 42,5, e ainda faltam 6,4 pontos pra fechar no domingo. Na leitura mais extrema, faltam 3,6. As margens dessa tabela batem com a mediana da grade, −1,1 contra −1,54, como têm que bater.
O viés das pesquisas decide quem chega em primeiro. Não decide se acaba no primeiro turno.
O que falta pra fechar está nos 16,4 pontos dos demais candidatos: dali teria que sair o resto, e vira pergunta política, quanto desse eleitorado migra e pra onde. Pedro Dória fez essa conta no mesmo vídeo e chegou perto do mesmo lugar. Vale precisar: se todo esse bloco migrasse pra um lado, fecharia, porque 40,1 mais 16,4 dá 56,5. O que não fecha é a migração na fração histórica, que em 2022 foi de 40% do bloco.
O voto útil não acontece onde todo mundo procura
Em 2022 dá pra testar isso direito, e o resultado me surpreendeu.
A lógica do teste é simples. Voto útil é migração que acontece antes da urna, então ela aparece na série de pesquisas: os candidatos menores encolhem semana a semana e os grandes crescem. Voto envergonhado é eleitor que não declara, então não aparece na série: só aparece como diferença entre a última pesquisa e o resultado. Os dois deixam marca em lugares diferentes.
Rodei sobre as pesquisas de 2022 entre 25 de agosto e a véspera, usando só os oito institutos presentes nas duas pontas, o que deixa 28 pesquisas dentro das duas janelas. Essa restrição importa: se você misturar institutos diferentes no começo e no fim, parte do "movimento" é só troca de quem estava medindo.
| Início de setembro | Véspera | Urna | Visível | Invisível | |
|---|---|---|---|---|---|
| Lula | 46,4 | 48,8 | 48,4 | +2,4 | −0,4 |
| Bolsonaro | 38,4 | 37,3 | 43,2 | −1,1 | +5,9 |
| Menores | 15,2 | 13,9 | 8,4 | −1,3 | −5,5 |
Olha a linha do meio. Bolsonaro estava caindo nas pesquisas enquanto subia para o resultado. Ganhou 4,8 pontos no total e, no trecho que as pesquisas enxergam, perdeu 1,1. Todo o movimento dele aconteceu onde ninguém estava olhando.
E agora a alternativa, porque este texto não tem o direito de mostrar uma especificação só. Sem a restrição aos oito institutos, usando os quinze que publicaram no período, Bolsonaro aparece subindo 0,9 no trecho visível e ganhando 3,9 no invisível. A frase "estava caindo nas pesquisas" existe sob a restrição e não existe sem ela.
Prefiro a leitura restrita, e o motivo é que sem ela parte do movimento é troca de quem estava medindo, não movimento de eleitor: a AtlasIntel, por exemplo, só entra na ponta final. Mas as duas leituras concordam no que importa: o invisível é maior que o visível nas duas, 3,9 contra 0,9 numa, 5,9 contra −1,1 na outra.
E o voto útil visível, aquele que o debate público passa a campanha inteira tentando acompanhar? Existiu, foi pequeno, e foi pro outro lado: os menores perderam 1,3 ponto durante setembro, e quem capturou foi o Lula.
Nos dias finais os menores perderam 5,5 pontos e o antipetista ganhou 5,9. Praticamente um para um. O Lula, no mesmo trecho, ficou em −0,4.
Na prática: a migração de candidato menor para candidato grande é real e é grande, mas ela não se desenha na série de pesquisas. Ela acontece no escuro.
O que mora nesse escuro cabe em três coisas: eleitor que decide nos últimos dias, eleitor que não declara o voto, e superestimação crônica de candidato menor, que é viés conhecido porque declarar simpatia por um terceiro é socialmente barato e desistir na urna não custa nada. As três explicam o dado. A que não explica é a de que o voto útil se acompanha pelas pesquisas.
Dá pra testar uma delas, e o resultado é incômodo
O teste clássico aqui seria boca de urna. Ele não existe mais no Brasil: em 2022 nenhum instituto fez, pela primeira vez desde a redemocratização. O Ipec decidiu não ir a campo, o Datafolha não faz desde 2000, e a razão do setor foi a mesma para todos: o TSE apura rápido demais e o custo não se paga. Nada indica que haverá em 2026.
Mas dá pra substituir. Se o movimento invisível fosse mudança tardia, o instituto que fechou o campo mais perto da urna capturaria parte dela e erraria menos. Se for não resposta, fechar o campo um dia antes ou cinco não muda nada, porque quem não se declara não se declara em dia nenhum.
Em 2022, catorze institutos fecharam campo entre 20 de setembro e 1º de outubro. Só três mediram na véspera: Datafolha, Ipec e Quaest.
| Fechou o campo | Erro médio sobre o antipetista |
|---|---|
| 1 dia antes da urna | −6,4 |
| 4 dias ou mais | −3,0 |
As médias da tabela são com sinal. Em erro absoluto, que é o que interessa aqui, os dois grupos ficam em 6,4 e 5,5: quase iguais. A correlação entre antecedência e erro absoluto é de +0,18, no sentido que a hipótese prevê, e fraca demais pra sustentar qualquer coisa.
Uma ressalva que puxa na mesma direção: o grupo dos quatro dias ou mais contém o Brasmarket, o mesmo discrepante da grade de vieses, que aqui errou 7,4 pontos pro outro lado. Sem ele os dois grupos praticamente empatam. Vale registrar que tirar o Brasmarket favorece a minha leitura nos dois testes, e por isso em nenhum dos dois eu o tirei do cálculo principal.
Quem mediu mais perto da urna não errou menos de forma detectável, e os três de véspera estão entre os que mais subestimaram o antipetista. Não é refutação da mudança tardia: é ausência de evidência a favor dela, onde a hipótese previa evidência forte.
Na prática: isso enfraquece a explicação de mudança tardia e reforça a de não resposta. E a diferença importa pra domingo: não resposta é estrutural e se transporta de uma eleição pra outra. Mudança tardia depende desta campanha e não se transporta.
O que isso projeta para domingo, como exercício
Em 2022, os menores entraram na reta final com 13,9 pontos e terminaram com 8,4: 40% do estoque migrou nos últimos dias, quase tudo para um lado.
Hoje os menores têm 16,4 pontos, mais do que tinham em 2022. A mesma fração daria 6,5 pontos migrando. Se fossem na mesma proporção de 2022:
Flávio Bolsonaro 40,1 + 6,5 = 46,6 contra Lula 43,5
Isto é exercício, não previsão, e repousa numa única eleição, com outro candidato e outro contexto. E repare numa inconsistência que eu deixo aberta de propósito: aqui os 6,5 vão inteiros para o antipetista, enquanto as correções de viés do resto do artigo repartem 79 para 21. A razão é que foi isso que 2022 mostrou no trecho invisível, onde o antipetista ganhou 5,9 e o Lula perdeu 0,4. São duas repartições diferentes medidas em dois lugares diferentes, e eu não sei qual vale pra domingo. Mas mostra duas coisas: o estoque de voto migrável de 2026 é maior que o de 2022, e em 2022 esse estoque se moveu inteiro sem que nenhuma pesquisa visse.
E mesmo nesse cenário, note, ninguém passa de 50%.
Duas ressalvas, e elas valem pra tudo que veio até aqui. A primeira: nos três ciclos recentes o antipetista foi subestimado, quase 10 pontos em 2014, 4,3 em 2018 e 5 em 2022. É consistente, e ainda assim são três observações. A segunda: são candidatos diferentes. Flávio não é Jair, e nenhum dos dois é Aécio. O que se transporta de uma eleição pra outra é o instrumento de medição, não o eleitorado.
A pesquisa individual erra mais do que declara
Nas pesquisas finais de 2014, 2018 e 2022, o erro absoluto médio sobre os dois primeiros colocados foi de 4,97 pontos, mediana 4,58, máximo 13,03. Dividir isso pelos 2,0 pontos de margem declarada dá 2,5 vezes, mas é enganoso: 2,0 é meia amplitude de intervalo de confiança de 95%, não o erro esperado. Sob uma margem bem calibrada em 2,0, o erro absoluto esperado seria 0,81, e 4,97 dividido por 0,81 dá 6,1 vezes. Esse é o fator honesto.
Na prática: se uma pesquisa diz margem de erro de 2 pontos, trate isso como piso, não como teto.
O componente comum e o componente de casa
Decompondo o erro de 2022, dá pra separar duas fontes. Uma é o componente comum: o pedaço do erro que aparece em todas as pesquisas, não importa qual instituto fez. A outra é o efeito de casa: o pedaço que varia de instituto pra instituto, a assinatura de cada metodologia. Os dois ficam na mesma ordem de grandeza, mas a razão entre eles depende de quais institutos entram na conta.
Três coisas sobre esse erro saem direto da conta.
A primeira é onde ele mora. Sobre as 13 casas com três rodadas ou mais, o componente comum foi de cerca de 2 pontos e a diferença entre um instituto e outro foi de 4 a 8 pontos. Um aviso de leitura: esse 2 não é o mesmo número que a correção mediana da grade, que é 4,5, nem o viés das oito pesquisas finais, que dá 6,4 de margem. São três universos diferentes, e cada um só vale com o seu rótulo. Errar em 2022 foi menos uma característica do campo inteiro e mais uma característica de cada casa.
A segunda é como ele se repartiu entre os candidatos. Como já vimos, foi quase 80% para o antipetista e 20% para o do PT, uma divisão que não tinha por que ser simétrica.
A terceira é quanto veio de quem apareceu na urna. Reponderando pela abstenção real por escolaridade, que vai de 11,85% entre quem tem superior completo a 52,08% entre analfabetos, contra 20,95% no geral, isso move a margem em cerca de 1 ponto.
O que não dá pra calcular é o resto, e o resto é a maior parte. Sobra um resíduo que mistura eleitor que não atende pesquisa, eleitor que muda de ideia na última semana, e erro do próprio instrumento. Separar os três exigiria boca de urna. Em 2018 ela existiu e não achei dado público utilizável; em 2022 ela simplesmente não foi feita. Sabemos de quanto foi o erro e onde ele se concentrou. Não sabemos por quê.
Isso tem uma consequência prática. Se a maior parte do erro é de casa, e não do campo todo, ler uma pesquisa só é muito pior do que ler várias. E "qual instituto é o melhor" é pergunta menos útil do que "o que elas dizem juntas".
Um aviso sobre o alcance disso. A evidência aqui é a distância entre as casas, que é grande, e a consistência de cada uma consigo mesma, que é alta. As duas vem da comparação das pesquisas entre si, sem passar pelo resultado da eleição. Elas dizem que as casas medem populacões diferentes. Não dizem qual delas está mais perto da verdade, e muito menos de quanto o conjunto vai errar. Essa segunda pergunta continua sem estimativa confiável.
O que ficou estabelecido
Cinco achados que os dados sustentam.
O antipetista foi subestimado nas três eleições: quase 10 pontos em 2014, 4,3 em 2018, 5 em 2022, padrão consistente em três observações.
O movimento decisivo é invisível: em 2022 os menores perderam 5,5 pontos entre a véspera e a urna e o antipetista ganhou 5,9, contra só 1,1 no trecho visível.
Medir mais perto da urna não ajudou: quem fechou campo na véspera errou tanto quanto quem fechou cinco dias antes. A mudança de última hora, se existe, não aparece onde deveria aparecer.
A abstenção vale cerca de 1 ponto: −1,0 p.p. na BTG/Nexus, +1,6 na AtlasIntel. Pequeno nos dois casos, e com o sinal dependendo de qual instituto você acredita.
A pesquisa individual erra cerca de 5 pontos e declara 2: o fator honesto é 6,1 vezes, não as 2,5 de uma conta apressada.
O que domingo vai decidir
Quatro perguntas que a véspera e o resultado resolvem.
O realinhamento de classe. AtlasIntel e BTG/Nexus discordam em 31 pontos no gradiente de escolaridade e 30 no de renda, e a AtlasIntel girou 42 pontos de gradiente de renda entre 2022 e 2026. Uma das duas descreve um eleitorado que não existe. Uma ressalva de unidade: as faixas da AtlasIntel são em reais e as da BTG/Nexus em salários mínimos, o que sozinho produz gradientes diferentes sem que nenhuma esteja errada. Mesma casa e método, a AtlasIntel mediu Lula por renda assim:
| Faixa (R$) | AtlasIntel 2022 | AtlasIntel 2026 |
|---|---|---|
| 0 a 2.000 | 61,8 | 37,7 |
| 2.000 a 3.000 | 50,0 | 48,5 |
| 3.000 a 5.000 | 38,0 | 39,7 |
| 5.000 a 10.000 | 35,3 | 47,6 |
| acima de 10.000 | 39,3 | 57,4 |
A BTG/Nexus mede −10,0, o padrão histórico. A inflação não explica: o salário mínimo subiu de R$ 1.212 a R$ 1.621, o que encolheu "até R$ 2.000" em termos reais e deveria ampliar a anomalia, não dissolvê-la. A manchete da AtlasIntel de 2022 reconstruída bate com o publicado dentro de 0,4 ponto: ou houve realinhamento sem precedente, ou uma medição está errada. Resolve pelo resultado por município cruzado com o Censo, ressalva da falácia ecológica.
Se o padrão do movimento invisível se repete: em 2022 os menores perderam 40% do estoque nos dias finais; hoje há 16,4 pontos parados.
O componente comum de 2026, medido uma vez só em 2022: o parâmetro que domina a incerteza da grade de 24.
Se o efeito de casa de setembro prediz o erro real de cada instituto, agora com erro de verdade, não com constante subtraída.
O pré-registro, a seguir, converte isso em previsões com critério de morte. Uma ressalva que vale para P5 e que não dá pra esconder no rodapé: regressão sobre município é inferência ecológica, e inferência ecológica não estabelece comportamento individual. O teste arbitra entre as duas medições, não prova qual descreve o eleitor de carne e osso.
Como isso foi calculado
As fontes: TSE, painéis de pesquisas e relatórios registrados de cada instituto. Duas limitações. O voto é secreto, então erro por recorte demográfico não é mensurável. E renda não existe em dado oficial nenhum, então qualquer leitura por renda, inclusive a do realinhamento de classe, é inferência a partir de pesquisa, não de Censo ou TSE.
Incertezas
1. O componente comum foi medido uma única vez, e domina a incerteza da estimativa. Não há como estimar sua variância.
2. São três observações. O padrão de subestimação do antipetista aparece em 2014, 2018 e 2022, mas três eleições não fecham uma lei.
3. 2026 não é 2022. Candidato diferente, contexto diferente: o que se transporta entre eleições é o instrumento de medição, não o eleitorado.
4. A anomalia da AtlasIntel não está precificada na grade. Se houve realinhamento de classe, a calibração histórica perde validade por obsolescência.
Pré-registro: o que domingo decide
| # | Previsão | Confirma se | Morre se |
|---|---|---|---|
| P1 | A média simples das 39 pesquisas de setembro (Lula 43,5, Flávio 40,1) erra menos, em margem, que a pesquisa mediana desse mesmo conjunto | erro do consenso menor | erro igual ou maior |
| P2 | O erro dessa mesma média fica abaixo de 3,5 pontos de margem | erro absoluto abaixo de 3,5 | igual ou acima de 3,5 |
| P3 | A ordem dos institutos pelo nível do antipetista em setembro prediz a ordem deles pelo erro real contra a urna | Spearman acima de 0,5 | abaixo de 0,2 |
| P4 | O viés comum de 2026 tem o mesmo sinal de 2022 | consenso superestima o PT | sinal contrário |
| P5 | Regredindo o resultado por município sobre a renda média do Censo, o gradiente tem o sinal de apenas uma das duas medições | sinal bate com uma só | bate com as duas ou com nenhuma |
| P6 | Os menores encolhem mais entre 28/09 e a urna do que entre 25/08 e 15/09, medido só nos institutos presentes nas duas janelas | queda do segundo trecho maior | queda do primeiro maior ou igual |
Se P1 e P2 morrerem juntas, a conclusão é dura e eu assino: o agregado também não serve, e não só a pesquisa isolada.
Atribuo de 10 a 20% de probabilidade a esse cenário. É julgamento subjetivo meu, não sai de conta nenhuma deste trabalho.
O que faço com o resultado
Sem boca de urna, sobram quatro contas pra segunda-feira, com os números de 2026: repetir o teste da data de campo, remedir o componente comum, testar o nível de casa de setembro contra o erro real, e resolver o realinhamento de classe pelo resultado por município cruzado com o Censo, com a ressalva ecológica que já está escrita no critério de P5.
Isso é mapa errado, no sentido do Queime o Plano: mapa imperfeito orienta quem precisa decidir antes de ter certeza. A margem de erro que você lê em pesquisa eleitoral é falsa precisão, número redondo que parece seguro e não é. A grade de 24 células não finge mais certeza do que existe, e mesmo assim orienta: ela não fixa magnitude nem direção, e fixa o tamanho da correção, que é grande. Errar na simulação é barato. Errar na urna é caro. Prefiro publicar o mapa incompleto, com critério de morte escrito antes do resultado, do que fingir precisão que os dados não sustentam.
Este texto está congelado a partir de agora. Domingo diz quais das seis previsões sobreviveram, quais morreram, e qual das duas leituras sobre a AtlasIntel tinha razão. A continuação sai depois, com os números de quem acertou e de quem errou, inclusive eu.